Uma questão de vocação

Eu creio, com todas as minhas forças (e a experiência tem comprovado isso), que em Deus, todos têm uma vocação e essa vocação é especifica.

Negar ou negligenciar isto é colocar em causa várias coisas muito importantes, tais como: o próprio Deus (que tudo fez e faz com propósito e especificidade), a Bíblia (que está cheia de exemplos e testemunhos) e o testemunho ou experiência de inúmeras pessoas que ao se chegarem a Deus, ao nascerem de novo através de Cristo e serem cheias do Espírito Santo, redescobriram-se. Ou seja, encontraram a sua vocação na vida e para a vida, dentro da Igreja ou fora dela, mas sempre através dela (Igreja).

Assumir a realidade da vocação pode trazer alguns “medos”: o medo da rejeição, da falta de qualidade/qualificações, de errar, o medo dos resultados, etc., mas a minha e a experiência de muitos, veio comprovar que o medo de virar costas a Deus, de rejeitar a Sua vontade, incomoda muito mais do que o medo de avançar com Ele e para Ele.

Inicio a reflexão com a questão da vocação porque é imprescindível, a meu ver, entender e aceitar isso, pelo simples facto de que se cremos que Deus não tem ou não dá vocação especifica a determinadas pessoas para determinados fins, então qualquer um pode ser e fazer qualquer coisa, significa que qualquer um está habilitado para tudo! Eu, pessoalmente, não acredito assim.

Eu creio que Deus nos criou, salvou e chamou para uma determinada vocação; todos, os que creem, são chamados à vocação de serem como Jesus, mas essa, levar-nos-á sempre à especifica. Creio que há algo de único e particular em cada pessoa; nem todos serão líderes, pioneiros, mas todos podemos juntar-nos a uma causa, a um propósito e somar, acrescentar, dar e dar-nos por isso.

Não sei se a Igreja, no seu inicio, estava tão “compartimentada” em relação a ministérios e departamentos, mas hoje é a realidade da maioria das igrejas locais, e a meu ver, não melhorámos a igreja, mas ao assumir os diferentes ministérios, departamentos ou grupos de forma particular, podemos melhorar a ação, a eficácia e até os resultados da e na Igreja.

Se não cremos que Deus nos dotou, capacitou e chamou de forma especifica para alguma ou algumas tarefas ou funções especificas dentro do “corpo”, então estamos a negar a Palavra. Paulo escreveu aos Efésios (4:16) e deixou claro que a Igreja só cresce quando cada parte (pessoa, grupo, ministério) cumpre a sua parte (função, vocação, chamada).

Se estamos em paz em relação à realidade de que Deus chama e capacita pessoas para diferentes tarefas, então estamos no bom caminho para edificar a igreja local.

Se cremos que Deus nos criou, salvou e chamou individualmente, então é nossa obrigação “virar a casa ao contrário e procurar a dracma perdida”, que pode simbolizar algo incompleto, inacabado, desvalorizado, como a nossa vida sem propósito, sem o cumprimento da nossa chamada e vocação.

Alguns nunca pensaram nisto desta forma, mas isso não significa que não estão em falta ou com falta de alguma coisa na vida; outros, pelas mais variadas razões, perderam algures no tempo a sua vocação, outros a enterraram e outros viraram-lhe as costas! Seja qual for o caso, todos precisamos de exercer a nossa chamada e vocação; a igreja não cresce com as opiniões, com as tradições e muito menos alimentando os medos, as frustrações, as deceções ou incertezas. A igreja local cresce quando nos envolvemos, quando nos damos, por vezes (e muitas vezes) mesmo, quando nem sabemos ao certo qual o nosso papel no Reino.

A minha experiência ensinou-me que estar pronto, não é saber tudo, não é saber o quê, mas saber a Quem e com quem; a minha experiência ensinou-me a ser servo e depois a servir.

Na minha caminhada fiz de quase tudo numa igreja local, e não o fiz em desespero para encontrar a minha função especifica, fi-lo por prazer, porque havia necessidade, porque aprendi a amar a Igreja. Cheguei à conclusão de que não fui eu que encontrei a minha chamada, foi a chamada que me encontrou na medida em que me envolvi com o serviço e sobretudo com o Senhor do serviço.

Hoje continuo a envolver-me em quase tudo, mas é na minha vocação e chamada que gasto as minhas forças, recursos, a maior parte do tempo. Não me envergonho de nada do que faço, mas sobretudo não me envergonho de quem sou: um servo e amigo de Deus.

Hoje continuamos a precisar de ambos: servos e amigos de Deus, gente que se dá, sem condições, pela Igreja local, ao mesmo tempo que é gente que descobriu o seu lugar, a sua tarefa, a sua motivação, o seu dom, a sua chamada a tempo inteiro na sua igreja local. Obreiros, não são os que “saem” para a obra, são os que “fazem” a obra; é urgente orarmos por obreiros e não menos urgente, nos levantarmos como obreiros onde estamos.

Daniel Borrego
Pastor Evangélico
Pontinha

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